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Entrevista Sebastien Tortelli
Publicado em: 29/12/2012

Bicampeão mundial de motocross ministrou curso de pilotagem no ASW Off Road Park
Redação MotoX.com.br - Texto e fotos: Maurício Arruda


Sebastien Tortelli

O motocross é um esporte que impõe constantes desafios. O circuito mudando a cada volta, as variações de obstáculos, terreno e clima, os ajustes do equipamento, são apenas algumas das variáveis que exigem dos praticantes um alto nível de concentração e total atenção nas pistas. Por essas e por outras, acredito que a prática do motocross seja um constante aprendizado. As possibilidades são infinitas e por mais tempo que você seja um piloto, cada corrida, além de muita adrenalina, traz ao menos uma lição. Ficar atento e assimilar este aprendizado sempre te faz um piloto melhor, e isto vale para todos, de qualquer nível técnico.


Bicampeão mundial de motocross veio ao Brasil a convite da ASW Racing
A paixão em controlar a máquina, aprimorar a técnica e superar os desafios é estimulante. Está aí a magia deste esporte. Não dá pra explicar, é preciso sentir. A família, a namorada ou quem quer que seja, muitas vezes não entende porquê todo domingo carregamos um monte de tralhas para ir em algum canto se sujar de poeira e barro, ao invés de ficar tranquilo curtindo um churrasco e uma piscina com os amigos.

Sem aprimoramento técnico, o praticante limita sua pilotagem e também restringe sua curtição sobre duas rodas. Explorar todas as possibilidades da modalidade é algo para poucos, mas todo mortal pode ampliar seus conhecimentos. A primeira quinzena de dezembro reservou uma oportunidade única para alcançar este objetivo com o suporte de um bicampeão mundial, o francês Sebastien Tortelli. Através de uma parceira com a ASW Racing, tradicional marca de equipamentos genuínamente brasileira, Tortelli veio ao país transmitir os conhecimentos adquiridos em uma carreira de sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Dois grupos de pilotos usufuiram deste treinador de luxo por dois dias, e eu estive entre estes privilegiados.

A atividade teve como palco o ASW Off Road Park, antiga fazenda localizada em Mogi das Cruzes (SP), que na atualidade é um grande espaço dedicado ao motociclismo fora de estrada. Os participantes do curso puderam se hospedar na sede local, um fantástico casarão antigo preservado originalmente, e ainda conhecer a fábrica - com direito a visita à linha de produção - do grupo que é responsável no Brasil por algumas das principais marcas do mercado, como Fox, Acerbis e Shift, além da própria ASW, entre outras. Tudo perfeito para dois dias inesquecíveis.

As atividades na pista começaram cedo e logo Tortelli mostrou ter uma memória incrível, falando em detalhes os erros e acertos de cada participante após os exercícios. O que não colaborou muito foi o clima. A chuva esteve presente nos dois dias do curso que participei, da segunda turma, em alguns momentos bastante forte. Mas, é importante lembrar, ela também faz parte do esporte! Desta forma, grupo e instrutor encararam a lama e o barro. A condição adversa não foi um problema para Tortelli, que mostrou disposição para continuar o trabalho da ChampFactory Motocross School, nome da escola de pilotagem itinerante a qual tem se dedicado desde que deixou de competir profissionalmente, em 2006.
O francês se mostrou nestes dias um grande apaixonado pelo esporte, sempre bastante atencioso com todos, tanto nos momentos de trabalho quanto nos de tietagem. Observei os ensinamentos, tentei colocá-los em prática e também me diverti bastante. Após o encerramento, Tortelli ainda me atendeu para uma entrevista. Confira o bate-papo:


Francês ministrou cursos de pilotagem no ASW Off Road Park

MotoX: Você foi campeão mundial muito jovem e, pelo que eu sei, a França tem um programa pra introduzir novos pilotos. Queria saber se você participou e a qual contribuição disso para ser um piloto campeão.
Tortelli: Isso ainda existe na França. Mudou um pouco. Selecionam os melhores pilotos de cada região e oferecem treinadores durante as férias - acontece durante quatro dias de seis em seis semanas. O programa ajuda os garotos a treinarem e a terem o suporte de um treinador, é por isso que conseguimos ter muitos pilotos jovens e muito ativos.


Campeão mundial 125cc (1996) e 250cc (1998)
MotoX: No enduro, a França também tem campeões muito fortes.
Tortelli: É a mesma coisa.

MotoX: Falando de treinador, você treinou com Jacky Vimond (campeão mundial de motocross 250cc em 1986).
Tortelli: Ele era o treinador oficial do programa na época. Na verdade, foi o primeiro.

MotoX: Vocês trabalharam juntos durante quanto tempo?
Tortelli: Do meu início até 1996, até eu ser campeão mundial. O programa é só para os mais jovens. Quando você chega na idade de correr o Europeu, não pode mais participar.

MotoX: Depois que você se tornou piloto profissional, campeão mundial, continuou tendo um treinador?
Tortelli: Sim. Sempre tive. Por muitas razões: você não consegue treinar sozinho, você precisa de alguém para te empurrar e te fazer cumprir o programa. Por que senão tem dia que você não quer ir. Se eu estiver sozinho num dia como esse, chovendo, não vou andar. Agora quando você tem um treinador, um cara que você paga pra isso, você vai treinar. Se não te chutar pra fora, pra ir treinar, ele não é um bom treinador. É o jogo. E, também, quando você corre, precisa de alguém pra te fazer evoluir. O treinador tem que ser um olho de fora analisando o que você está fazendo, o que os outros caras estão fazendo, onde você está ganhando tempo, onde está perdendo tempo. O treinador tem que fazer mais do que simplesmente estar lá, tem que fazer parte, ser alguém em que você pode confiar e te ajudar a evoluir, ir em frente.

MotoX: Agora você montou esse programa pra treinar pilotos. Você já tinha essa ideia antes de parar de competir? Como surgiu esse plano? Se inspirou em algo ou alguém?
Tortelli: A ideia surgiu depois. Porque, sabe, são jeitos diferentes de olhar pro esporte quando você corre e depois. Não planejei parar de correr. Quando parei, foi repentino. O certo é planejar quando parar, mas isso não aconteceu comigo. Então, primeiro, foram seis meses para me recuperar do acidente que encerrou minha carreira. E depois pensar no que eu gostaria de fazer. Eu sempre amei o esporte. Estava no esporte não só pelas motos, mas pela corrida. Sou um piloto por natureza. Mas, sabe, para mim não era possível ficar longe das competições. Então comecei a pensar no que eu me adaptaria melhor para fazer e ainda estar envolvido no esporte. Pensei em ser chefe de equipe, em desenvolver produtos, trabalhar em fábrica, várias coisas. E treinar para mim fez mais sentido. Por que eu vim de um passado em que treinadores estavam sempre presentes, vivi com treinadores. Então eu aprendi vários jeitos de me tornar um. Aprendi no jeito difícil como ganhar, o que funciona e o que não. Então a ideia por trás é que posso ajudar pilotos mais jovens a evoluírem. Hoje em dia, os pilotos de alto nível, todos eles ou quase todos, estão no esquema de treinamento. Quando não era tão profissional, você podia treinar aos fins de semana e contar com talento. Hoje o esporte é profissional. E para se tornar um, tem que começar de baixo pra cima. O que eu vejo no Brasil, é que o piloto ainda pode andar por prazer e andar bem, porque tem talento e físico. Só que esse cara, quando compete com os profissionais, é comido vivo. Ainda não tem esse nível de profissionalismo.


A ChampFactory Motocross School é seu trabalho atual

MotoX: E culturalmente os caras não se dispõem a ter um treinador.
Tortelli: Por isso que eu digo, eles vão fazer o caminho mais difícil, eles vão perder campeonatos. Espero que eles percebam o que precisam. Tem que se preparar. Os caras da Austrália, da África do Sul e México que me visitam, vão pra receber esse conhecimento e voltarem mais fortes para casa. E aqui eles nem vem. Aqui é um acampamento, em dois dias não dá para passar o que é treinar, de fato. Eu demonstro um pouco do que é realmente treinar.


Orientando um dos alunos durante o curso
MotoX: Agora queria falar um pouco da sua carreira. Na Europa você era apontado como o grande adversário do Everts e nos Estados Unidos do Carmichael. Realmente vê dessa forma ou tinha outros pilotos que você enxergava como fortes adversários?
Tortelli: Essa é a verdade. Digo, era difícil competir com o Everts na Europa e terminar entre os primeiros. Foi o primeiro degrau da minha carreira. A decisão de ir aos Estados Unidos foi pelo supercross, o topo do motocross. Era diferente, tive que me adaptar. Dei duro no supercross. Mas supercross exige horas e horas, muito tempo. Só comecei a ficar confiante/competitivo no fim da minha carreira. Era difícil. São coisas diferentes que vêm no decorrer da carreira. Era difícil estar entre os primeiros. Mas depois aprendi o jogo. O Carmichael era uma das partes difíceis, ele tem físico, é técnico, tem muita vontade. Competir contra o RC, era competir contra alguém muito talentoso e sedento por vitória. Eu era do mesmo jeito. Mas ele era melhor. Se não fosse por ele, minha carreira nos Estados Unidos seria como foi na Europa.

MotoX: Quem era mais difícil, Carmichael ou Everts?
Tortelli: É diferente. Carmichael é mais parecido comigo. Tem muita motivação, emoção. Temos o mesmo estilo. Quando tem que competir com alguém do mesmo jeito, você sabe o que vai vir. Sabe o que vai funcionar. Eu nunca desisto e ele também não. Então era poeira até a morte basicamente, até o combate final. Mas quando você pega alguém que é diferente, como o Everts. É um pouquinho mais difícil. Fica mais competitivo.


Tortelli teve como grandes rivais Stefan Everts, na Europa, e Ricky Carmichael, nos Estados Unidos

MotoX: Tem algum ponto que você se sentia mais confortável em relação aos dois? Obstáculos, pulos, velocidade?
Tortelli: Me sentia confortável quando a pista era ruim, destruída. Quanto mais difícil, melhor. Porque eu sempre treinei nas piores condições. Nunca treino na pista que está boa, porque não se aprende nada. Só treino a parte pesada. Quando eu corria contra o Everts, estava vivendo no meu país. E quando você vive no seu país você tem todas as coisas com as quais está acostumado, sabe como funciona e o que as pessoas a sua volta fazem. Sua equipe é compatriota. Tudo está armado para te ajudar a chegar lá. E quando eu fui para os Estados Unidos, perdi isso. Sempre senti, quando estava correndo, que faltava alguma coisa. Quando você está fora, sente falta do que tinha. Quando você está um nível acima, não são as grandes coisas que fazem diferença, são as pequenas. Se ele pula, eu também posso pular. Se ele pode fazer a curva rápido, também posso. As diferenças ficam nos detalhes.


Durante o curso, ele mostrou que continua com uma pilotagem limpa, precisa e veloz
MotoX: Você era amigo deles?
Tortelli: Você não pode ser amigo quando compete. Você é educado e trata bem o cara.

MotoX: E quando você parou de competir? Mudou alguma coisa, por exemplo, com o Carmichael?
Tortelli: Ele não é meu melhor amigo, nunca foi. Conheço ele, temos uma relação amistosa. Nos falamos quando nos vemos. Mas ele não vai me convidar pra ir a casa dele. E o Stefan tinha algo mais forte, não pelo lado da amizade, mas pela competição. Você não pode ser melhor amigo do cara que você vai competir. Melhor amigo é o cara que você pode confiar e entregar sua moto. São poucos caras que você pode contar. O esporte é o esporte, não quer dizer que você tenha que ser malvado. Mas é competição.

MotoX: Você conquistou seus dois títulos correndo de dois tempos, depois no fim da carreira começou a correr de quatro tempos. Como você analisa essa mudança, acha positiva para o esporte?
Tortelli: Tem dois jeitos diferentes de olhar pra essa situação. Correr de quatro tempos é mais fácil pra todo mundo. É uma moto que te deixa errar e corrigir os erros. Agora na dois tempos você tem que ser preciso. Porque se você não for preciso, não vai conseguir o tirar o melhor resultado da moto. É um jeito de olhar. O segundo é que tem o problema do barulho. A dois tempos é barulhenta, mas o barulho fica no lugar. Você vai pra quatro tempos que não faz mais barulho, mas o ruído vai a quilômetros de distância. O ruido se propaga muito longe. Muitas pistas estão fechando pela poluição sonora. Dizem que é pelo lado ecológico, que seja. No final é negócio. O motor de uma quatro tempos é o dobro do preço da dois tempos. E uma dois tempos, você troca o pistão uma vez por ano, a moto dura. Isso não acontece na quatro tempos. É interessante para os negócios.


Mostrando um exercício com a moto de um dos alunos


Veja também: Galeria de Imagens com 125 Fotos do Curso!
MotoX: O que você curte mais?
Tortelli: Eu gosto das duas. Tanto de uma 125 como uma 450 ou 350. Depende da hora, da ideia que tenho em mente no dia, depende do dinheiro disponível pra gastar, depende de muitas coisas. Pessoalmente, eu adoro as duas. Não é a mesma coisa pra correr, são ideias diferentes. Cada motocicleta tem o seu momento. Você pode ser rápido em qualquer uma das duas. Mas para competir junto, acho que não é justo uma quatro tempos contra uma dois tempos no regulamento atual. Para mim, pilotar em qualquer uma é ótimo.

MotoX: Queria falar das suas duas passagens pelo Brasil. Você teve um dos acidentes mais espetaculares da carreira aqui, em Indaiatuba, durante o Motocross das Nações de 1999. Como também teve vitórias. Em Belo Horizonte você venceu.
Tortelli: O Brasil sempre foi marcante em minha carreira. Teve o acidente em Indaiatuba que foi o maior da minha vida, sem dúvida. Mas eu sobrevivi, sem um osso quebrado, impressionantemente. A moto ficou destruída. Mas quando voltei, para o Campeonato Mundial, eu ganhei por causa da queda do Stefan em Belo Horizonte. Ele teria que ter parado (NDR: para trocar a ponteira de escape danificada), mas não parou e foi penalizado. Então o Brasil tem momentos marcantes da minha carreira.

Confira um vídeo do acidente de Tortelli durante o Motocross das Nações no Brasil:



MotoX: Dessa viagem, não mais como competidor, você viu o Brasil com outros olhos?
Tortelli: Com certeza. Antes eu chegava e não me importava com o que tinha em volta. Chegava, fazia o meu trabalho e ia pra próxima. Agora eu tenho a chance, não de viajar, mas de ver o que está acontecendo lá fora, conhecer mais sobre a cultura, o que para mim é incrível. Passar mais tempo com as pessoas. Essa é a diferença quando você visita um país como piloto e depois. Quando você está competindo, você viaja muito mas não vê muita coisa. Só conhece as pistas. Quando você não está mais competindo, pode conhecer lugares, pessoas, aproveitar mais o tempo. Coisa que antes eu não podia.

MotoX: Muito obrigado.
Tortelli: Foi um prazer.


Agradecimento especial a Fernandinho Silvestre pela colaboração na entrevista.



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